Nos últimos dois meses, pelo menos cinco eventos foram encerrados após serem invadidos com imagens pornográficas, ruídos e xingamentos

A assessoria jurídica da Associação de Docentes da UFPA (Adufpa) orienta que os ataques ocorridos em eventos, aulas e lives da Universidade Federal do Pará (UFPA), sejam denunciados à Diretoria Estadual de Combate a Crimes Cibernéticos, da Polícia Civil. Também disponibiliza o e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. para denunciar esses fatos à entidade. Nos últimos dois meses, pelo menos cinco eventos foram encerrados após o compartilhamento de imagens pornográficas, ruídos e xingamentos. Conforme os registros virtuais, os invasores se apresentam como bolsonaristas, milicianos, fascistas e negacionistas.

De acordo com a assessora jurídica da Adufpa, Ana Kelly Amorim, a partir da investigação sobre as origens dos ataques, é possível identificar e responsabilizar os envolvidos. “Se for comprovada a participação de algum membro da comunidade acadêmica, além do processo civil, o responsável pode responder processo administrativo, com penalidades que variam da advertência à expulsão, seja aluno, docente ou técnico”, explica.

Em nota, a UFPA informou que repudia veementemente os episódios de invasão de salas virtuais com transmissão de atividades acadêmicas, assim como qualquer iniciativa que desrespeite os direitos constitucionais, por meio de discursos de ódio, racistas, homofóbicos, misóginos e de incitação à violência. Os casos informados são encaminhados para apuração pelos setores competentes e estão sendo reforçadas as orientações técnicas para realização de eventos virtuais com melhores configurações de segurança nas plataformas disponibilizadas pela Universidade.

Ataques - No encontro do Observatório Paraense do Mercado de Trabalho (Opamet), vinculado à Faculdade de Economia da UFPA, já havia transcorrido quase uma hora quando começaram os ataques. “Fora, é hora do show...” foi uma das falas que precedeu o compartilhamento de imagens com apelo sexual, gargalhadas e diversos outros tipos de interferência com caráter racista, homofóbico, fascista e de violência. Pelo menos 10 pessoas invadiram a sala virtual e o evento foi encerrado, denuncia o coordenador do Opamet, professor José Raimundo Trindade.

O debate, ocorrido no último dia 8, foi alvo de “zoombombers”, um tipo de ataque hacker às transmissões online - lives, aulas, palestras, encontros - que vem ocorrendo durante a pandemia de covid-19. “Perdeu, passa a live” falou outro invasor no evento do Opamet, exibindo também a imagem de um miliciano armado no perfil. “Algumas características ficam evidentes nesses ataques...a misoginia, o fascismo, a milícia, o racismo, a homofobia e a violência de um modo geral”, explica Trindade.  

Semanas antes, uma aula do doutorado do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) também precisou ser encerrada após um dos participantes, que até então mantinha-se anônimo na sala, dizer frases negacionistas e de desqualificação do conhecimento acadêmico. Na Faculdade de História, eventos relacionados a discussões sobre a Ditadura Militar também foram atacados. Em 2020, a professora Edilza Fontes (UFPA) foi atacada em evento que se realizava conjuntamente com a Universidad del Valle, da Colômbia.

 

Eventos em outras instituições ou com outros projetos também foram alvo das investidas. Essas ações aumentaram desde o início da pandemia e maior utilização das plataformas digitais para realizar debates e outras atividades. Um dos casos mais violentos foi durante o lançamento do livro “Comida Cabocla”, do antropólogo Miguel Picanço, ocorrido no dia 20 de fevereiro. Além dos diversos xingamentos proferidos pelos invasores, vídeos de sexo explícito e mensagens de exaltação ao presidente, com a hashtag #bolsonaro2022, obrigaram os organizadores encerrarem o evento. “É um livro que aborda a comida como marcador de identidade nortista e isso incomodou essas pessoas que não reconhecem as práticas culturais. O objetivo desses ataques é desprestigiar e desqualificar toda e qualquer manifestação que não comungue com aquilo que eles acreditam”, observa o antropólogo. 

O Opamet emitiu uma nota direcionada aos “fascistas e antidemocráticas”, criticando os ataques. A Associação Brasileira de Economistas pela Democracia, seção Pará, divulgou uma nota de repúdio às manifestações “fascistas, machistas e misóginas”, atribuídas a militantes bolsonaristas. O documento ressalta a violação da liberdade de expressão e de pensamento a partir dos ataques sofridos pela comunidade acadêmica.

A Adufpa se manifestou por meio de sua diretoria. “Esses ataques se somam à tentativa do governo Bolsonaro em tentar cercear a liberdade de cátedra, como vimos, por exemplo, na UFPel, UFPE e na tentativa de desqualificar as vacinas contra a Covid-19. São, antes de tudo, ataques à ciência e à democracia e compõem esse arsenal bélico da ultradireita fascista. Apesar disso, não nos calarão. Prestarmos solidariedade acadêmica e jurídica. Para cada evento que eles invadirem organizaremos dezenas de outros mais”, afirma o diretor geral da Adufpa, Gilberto Marques.